O São João, as suas origens pagãs e os martelinhos

São João

Todos os portugueses conhecem a tradição de usar um martelo de plástico durante as festividades de São João. Nesta época do ano dar uma martelada com estes populares objectos nas cabeças de amigos, ou mesmo em desconhecidos, não é algo que cause grande espanto porque está enraizado na nossa tradição popular. No entanto, se dermos marteladas na cabeça de alguém fora desta época festiva, talvez se afigure algo descabido… E se isto acontece com turistas, ainda mais excêntrico se torna o acto!

Avenida da Liberdade

Diz-se que os martelos usados durante as festas de São João surgiram no Porto nos inícios dos anos 60 e que foram criados por Manuel António Boaventura, um industrial de plásticos do Porto. Estes objectos começaram inicialmente a ser usados pelos estudantes nas suas festas académicas e, só mais tarde, se popularizaram nas festividades de São João daquela cidade. A graciosidade do instrumento levou a que fosse adoptado pelas demais cidades onde se festeja o São João, como é o caso da cidade de Braga onde o São João tem raízes históricas vetustas e o dia 24 de Junho é feriado municipal.

Martelinhos de São João

A produção em massa dos martelos de plástico veio, de certa forma, retirar algum protagonismo ao uso de alguns elementos vegetais simbólicos das festividades sanjoaninas bracarenses tais como o alho-porro, a arruda ou o manjericão. Estes e outros elementos estão ligados à dimensão profana que envolve as festividades sanjoaninas. Por exemplo, o alho-porro é usado com funções profilácticas, que são as de desviar o mau-olhado, não descartando o seu lado fálico à semelhança dos martelos de plástico – cada martelada deve ser levada a bem, e vista como um desejo de boa fortuna…

Alho Porro

Neste âmbito, a celebração do nascimento do São João estará relacionado com um culto ancestral da Natureza, da comemoração do solstício de Verão que se traduz na esperança de grande fertilidade e correspondente abundância nas colheitas. O sol é sinónimo de vida e, nesta época do ano, atinge a sua força máxima. A Igreja Cristã fez a correlação religiosa entre uma crença pagã e o culto cristão, determinando o momento do primeiro solstício do ano como o do nascimento de João Baptista, o precursor.

São João teve uma grande importância no início do cristianismo. É descrito como um asceta com grande rectidão moral que anunciou a chegada do Messias que os cristãos acreditam ser Jesus Cristo. Foi João quem baptizou Jesus no rio Jordão, num episódio repleto de simbologia e que é recriado com figuras anualmente no rio Este junto à Ponte de São João.

Capela de São João da Ponte

O santo precursor morreu decapitado depois de ter sido preso por ordem de Herodes Antipas. A sua cabeça foi entregue numa bandeja de prata a pedido de Salomé, filha da sua amante, Herodias.

Um pouco destas narrativas e representações simbólicas são transmitidas aos turistas participantes das Minho Free Walking Tours junto à Igreja de São João do Souto – local onde terão principiado as remotas celebrações sanjoaninas em Braga. Nada resta de uma antiga construção que teria sido fundada no ano de 1150. O templo actual resulta de uma reconstrução executada no século XVIII.

Igreja de São João do Souto

Esta igreja é um templo peculiar porque se encontra adossado a uma capela, a Capela dos Coimbras. A igreja está revestida a azulejos tanto no interior como no exterior. De estilo barroco saliente-se o retábulo dourado do altar principal. À entrada, no lado esquerdo, podemos encontrar a pia baptismal e a representação com azulejos da cena do baptismo de Jesus. Na capela lateral direita, podemos conferir a cabeça de São João decapitada que desperta grande interesse nos nossos visitantes.

No final, depois de apresentada a Igreja, os turistas são surpreendidos com algumas marteladas dadas por alguns guias que andam munidos de um pequeno martelo para utilização diária. Depois de uma enorme risada, os nossos participantes lembram-se bem daquilo que lhes foi dito sobre o paganismo sanjoanino…


Este artigo foi escrito pela Minho Free Walking Tours

 

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